
Com políticas afirmativas, projetos culturais e comissões dedicadas à inclusão, equidade e enfrentamento ao racismo em todas as suas formas, as ações desenvolvidas no campus Cuiabá – Bela Vista do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) ultrapassam o Dia da Consciência Negra, celebrado no dia 20.
Uma dessas ações foi a Semana da Consciência Negra, organizada pela Comissão Permanente de Diversidade e Relações Étnico-raciais, e que contou com diversas atividades como a palestra aos estudantes dos cursos de graduação em Tecnologia em Gestão Ambiental e Química Industrial sobre racismo ambiental, justiça climática e direitos ambientais.
A antropóloga e professora Cassiana Oliveira da Silva Kamikiawa iniciou fazendo um retrato das populações mais afetadas pelo racismo ambiental: mulheres negras quilombolas sob pressão de monoculturas e do avanço agrícola; povos indígenas atingidos por garimpo, desmatamento e queimadas; moradores das periferias urbanas vulneráveis a enchentes e desastres climáticos, especialmente as mulheres negras, as mais impactadas pela insegurança alimentar.
Identificar o racismo ambiental, na visão da palestrante, é constatar que há uma distribuição desigual de riscos e danos ambientais, que afetam desproporcionalmente povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e periferias urbanas, o que é resultado de desigualdades históricas, territoriais e raciais.
Alem disso, foram levados a pensar em formas de enfrentamento da desiqualdade ambiental, como titulação e proteção de territórios quilombolas e indígenas, inclusão de recorte étnico-racial em diagnósticos ambientais, fortalecimento de órgãos de fiscalização, educação ambiental antirracista e participação comunitária nos processos de decisão.
Como enfrentamento ao racismo ambiental a docente citou a titulação e proteção de territórios quilombolas e indígenas, a inclusão de recorte étnico-racial em diagnósticos ambientais, o fortalecimento dos órgãos de fiscalização, além da educação ambiental antirracista e da participação comunitária nos processos de decisão.
“É preciso perguntar: quem ganha e quem perde? Onde se localizam os impactos? Existe consulta às comunidades? Há alternativas menos prejudiciais? O dano afeta modos de vida ou territórios tradicionais?”, afirmou.
Falando para uma plateia formada por futuros trabalhadores da área, a palestrante destacou o papel dos estudantes no sentido de desenvolver práticas técnicas com responsabilidade social, produzir pareceres e laudos com enfoque em justiça climática, garantir transparência e participação das comunidades afetadas.
“É possível atuar como cientistas comprometidos com a equidade. A justiça climática é inseparável da justiça racial e os povos tradicionais são centrais para soluções ambientais duráveis. O combate ao racismo ambiental é compromisso técnico, político e ético”, defendeu.
Diálogo sobre violência negra
Durante a Semana da Consciência Negra, também foi lançado o caderno “Relatos sobre violência política contra mulheres de Mato Grosso”, uma produção conjunta do Laboratório Nenhuma a Menos e do Grupo de Trabalho Políticas de Classe para as Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS), vinculado aos sindicatos Adufmat e Adunemat.
As organizadoras da publicação foram as professoras da UFMT Lélica Lacerda e Clarianna Martins Silva. Lélica conversou com os estudantes do ensino médio e superior sobre o objetivo da obra de romper o silenciamento e valorizar as mulheres que ousam lutar em Mato Grosso, estado com a maior taxa de feminicídios no Brasil, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Mediadora da conversa, a professora Dejenana Keila Oliveira Campos, do IFMT Cuiabá – Octayde Jorge da Silva apresentou dados sobre violência contra a mulher em Mato Grosso e como esta violência atinge, em maior proporção, as mulheres negras.
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